31.7.2025

Carta da Terra e o Chamado à Ação

Reflexões sobre o VIII Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países e Comunidades de Língua Portuguesa

Por: Tamy Kobashikawa / Crédito da imagem: Filipe Veras e Tamy Kobashikawa

O I Evento Lusófono da Carta da Terra, realizado em 21 de julho de 2025 (segunda-feira), na cidade de Manaus (Brasil), foi um momento de conexão, escuta e compromisso coletivo. Integrado à programação oficial do VIII Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países e Comunidades de Língua Portuguesa, o evento reuniu mais de 100 participantes de diversas nações lusófonas.

Com intuito de fortalecer os vínculos entre Carta da Terra e práticas educativas voltadas à sustentabilidade entre os países lusófonos, o Evento Integrado proporcionou oportunidades de educadores, gestores e estudantes compartilharem experiências concretas de como a Carta é aplicada em políticas públicas, iniciativas comunitárias e processos de educação formal e não formal. Ao longo de quatro painéis temáticos e uma mesa de diálogo, foram compartilhadas reflexões sensíveis e profundas sobre o papel da Carta como instrumento pedagógico e referência ética para os desafios do nosso tempo.

Nos dias subsequentes ao Evento Integrado, os pilares da Carta da Terra — respeito e cuidado da comunidade da vida, integridade ecológica, justiça social e econômica, e democracia, não-violência e paz — estiveram presentes de forma transversal nos debates, oficinas e encontros do Congresso. Na sexta-feira, também ocorreu uma Oficina com o tema Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Carta da Terra (CT) como estratégias de Educação Ambiental para jovens no enfrentamento dos desafios das comunidades locais organizados por Isis Torales, gestora de projetos e coordenadora da Carta da Terra na Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), Ana Almeida,  professora de biologia e geologia e voluntária da ASPEA e Joaquim Ramos Pinto, presidente da direção nacional da ASPEA.

A seguir, destaco três eixos reflexivos que ressoaram com mais força em mim, a partir das experiências vividas no Evento Integrado e nas atividades do Congresso como um todo:

  1. Emergência Climática e Compromisso Ético

Vivemos um tempo marcado por desequilíbrios sociais, colapso ambiental e incertezas planetárias. Nesse cenário, a Carta da Terra se reafirma como um guia ético à consciência, à ação responsável e à construção coletiva de alternativas sustentáveis.

Durante o Evento Integrado, Mirian Vilela, diretora-executiva da Carta da Terra Internacional, relembrou as resoluções da UNESCO (32C/17, de 2003, e 40C/20, de 2019), que reconhecem a Carta como um importante referencial para o desenvolvimento sustentável assim como instrumento educativo. A proposta de alfabetização ética, ecológica e sistêmica oferecida pelo documento nos fornece os fundamentos necessários para formar uma cidadania planetária — consciente da interdependência da vida e comprometida com sua preservação.

Já na palestra de abertura do Congresso, Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente do Brasil, trouxe uma provocação potente: “Em 1992, educávamos para o futuro. Hoje, o futuro já chegou. Como educamos depois do futuro?”

Essa indagação ecoou fortemente entre os participantes e em mim, instigando a reflexão sobre os limites da racionalidade moderna e a urgência de reencantar a educação com sentidos éticos e afetivos. Ela nos leva a reflexão de que hoje vivemos o “futuro” tão sonhado em 1992, apesar de não havermos cumprido os compromissos lançados. Como podemos educar esta época que é após o futuro visualizado? Marina nos pede que a COP30 não seja mais um ponto de partida, mas um ponto de parada. Para não haver mais novos pontos de partida, mas a ação em cima de tudo o que já fora acordado.

2. Cooperação Lusófona em Prol da Justiça Climática e do Bem Comum

Um segundo eixo do evento foi a valorização da cooperação entre os países lusófonos, tendo como horizonte comum a justiça climática e o cuidado com o bem comum. A diversidade cultural e geográfica dos territórios de língua portuguesa — da Amazônia às ilhas do Atlântico, das metrópoles africanas às comunidades ribeirinhas — foi celebrada como riqueza e potência para a construção de um futuro solidário.

Ao longo do evento, múltiplas falas destacaram o valor dos saberes ancestrais, o diálogo intercultural e o conceito de bem viver como caminhos possíveis para regenerar relações humanas e ambientais.  Na quinta-feira, visitas a comunidades originárias permitiram momentos de escuta sensível sobre culturas, modos de vida e práticas sustentáveis enraizadas na convivência com a natureza.

Essas vivências ganharam ainda mais sentido quando, no dia 24 de julho, o mundo registrou o Dia da Sobrecarga da Terra — data que simboliza o momento em que ultrapassamos a capacidade anual do planeta de regenerar seus recursos. Este marco escancara as desigualdades ecológicas globais: enquanto países consomem além dos limites planetários, outros sobrevivem à margem, muitas vezes forçados a esgotar sua porção ambiental.

3. Justiça Climática, Equidade e Participação Inclusiva

O terceiro eixo ressaltou a urgência de redefinir a ideia de prosperidade, deslocando o foco do consumo para a plenitude do ser. A verdadeira prosperidade, como foi destacado, não se mede pelo acúmulo, mas pela dignidade, pela convivência pacífica e pela realização de vidas com propósito. Retorno aqui novamente à palestra da Ministra Marina Silva.

A ministra alertou para a necessidade de uma “pausa” diante da aceleração da destruição dos ecossistemas e das relações humanas: “Destruímos o planeta porque confundimos prosperidade com ter, quando deveríamos redescobrir a riqueza do ser.” A Carta da Terra, nesse contexto, funciona como uma bússola para esse reencontro consigo, com os outros e com a natureza. Ela inspira caminhos de regeneração que passam pela escuta, pelo diálogo intercultural, pela espiritualidade e pela convivência pacífica.

educação ambiental, portanto, precisa comprometer-se com a formação de sujeitos críticos, sensíveis e engajados, capazes de atuar em favor da justiça socioambiental. É necessário educar para a empatia, para o diálogo e para a transformação — em suas múltiplas expressões culturais, espirituais e territoriais.

Diversas falas reforçaram que inclusão e equidade não são metas isoladas, mas fundamentos de um mundo sustentável. Promover justiça intergeracional, reconhecer os direitos dos povos originários, garantir igualdade de oportunidades e respeitar a diversidade de identidades são compromissos centrais de uma educação transformadora.

Carta da Terra traduz esse horizonte ao propor um novo paradigma de consciência planetária, fundamentado no respeito à comunidade da vida, à justiça social e econômica, na integridade ecológica, e na democracia, não-violência e paz.

Concluo minha reflexão agradecendo a todos os organizadores do Congresso, em especial aos organizadores do Encontro Integrado: a Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), o Centro de Educação Ambiental e Preservação do Patrimônio (CEAPP/UFPR), a Associação Alternativa Terrazul, a Teia Carta da Terra Brasil, a Carta da Terra Internacional, e o Instituto Soka Amazônia.


A Dra. Tamy Kobashikawa é uma educadora da Carta da Terra. A autora investigou programas de assistência social no Brasil e cooperação internacional no campo da agricultura entre Moçambique, Brasil e Japão. Atualmente, ela estuda a interseção entre a abordagem de criação de valor e o Desenvolvimento Humano em projetos de educação ambiental na Amazônia.