21.5.2026

O que a corrida pelas terras raras tem a ver com o ouro do Brasil no período colonial e a exploração do petróleo no séc. XX?

Rose Marie Inojosa. 16 de maio de 2026.

No período colonial, muitas riquezas do Brasil, inclusive o ouro, foram saqueadas e levadas para a Europa, deixando um rastro de destruição e a raiz de uma dependência histórica, que trouxe pobreza para onde havia abundante riqueza.

No século XX, o petróleo passou a ser chamado de o novo ouro. A cada jazida descoberta, os países do mundo e o Brasil celebravam.

Desde a revolução industrial, os derivados do petróleo passaram a alimentar um modo de vida social e ambientalmente injusto e insustentável. A promessa de prosperidade acabou sendo para muito poucos, mas as consequências vieram para todos, na persistência da pobreza e na responsabilidade do uso do petróleo pelo aquecimento global e atual mudança climática.

Agora, no séc. XXI, há a corrida mundial pelas terras raras, que alimentam as novas tecnologias de produção da sociedade de consumo.

Vivemos uma nova e trágica versão da mesma história?

As “terras raras” são assim chamadas pela concentração viável para mineração de um grupo de elementos químicos essenciais para alimentar as indústrias de eletrônicos, de comunicação, aeroespacial, militar, veículos elétricos, turbinas eólicas, refino do petróleo, imãs para scanners.

Festeja-se o fato de o Brasil ter a segunda maior reserva de terras raras no mundo. Os maiores depósitos estão em Goiás, Minas Gerais, Amazonas, Bahia e Sergipe.

Muitos olhos e cobiças já miram o tesouro.

A empresa norte americana, USA Rare Earth, anunciou, em abril de 2026, a aquisição do grupo brasileiro Serra Verde por US$ 2,8 bilhões. O Serra Verde Pesquisa e Mineração era dono da única mina de terras raras em operação comercial em larga escala no Brasil, situada no município de Minaçu, norte de Goiás, divisa com Tocantins.

Embora a Agência Nacional de Mineração seja o órgão autorizativo do direito minerário, o licenciamento ambiental, pela legislação feita pelo atual Congresso, é realizado pelos estados. A mineração de terras raras exige processos complexos para sua extração e beneficiamento. Existem diferentes tecnologias para a obtenção de minerais raros. A mais danosa é o uso de cavas e explosivos, que movimenta toneladas de terra e usa como tecnologias de refino a Pirometalurgia ou a Hidrometalurgia. Outra é a Lixiviação in-situ, usando poços injetores para bombear solução química na formação geológica subterrânea, dissolvendo minerais raros, que é bombeada de volta por poços de produção. Há importante risco de contaminação de aquíferos. A Biomineração utiliza micro-organismos vivos para quebrar as matrizes minerais e liberar elementos raros sendo eficaz para extrair terras raras de minérios de baixo teor e de rejeitos industriais históricos. A Fitomineração ou agromina utiliza plantas conhecidas como hiperacumuladoras, cujas raízes absorvem os metais.

E há a Mineração Urbana, que é a menos danosa, pois, ao invés de fazer novas retiradas de minerais da natureza, processa lixo eletrônico (e-waste), baterias usadas e imãs descartados para recuperar os minerais estratégicos – economia circular. Quem está fazendo isso?

O Brasil tem especialistas e estudiosos sobre mineração. O Serviço Geológico do Brasil tem foco em identificar a viabilidade econômica de diferentes depósitos de terras raras no território nacional. O CETEM (Centro de Tecnologia Mineral) integra redes nacionais de pesquisa laboratoriais. Universidades como a Escola Politécnica e o Instituto de Química da USP, a Universidade Federal de Minas Gerais e a UNICAMP, lideram pesquisas na metalurgia do pó para a fabricação local de imãs de Neodímio-Ferro-Boro, para que o país, além de possuir o minério, gere o produto final, hoje importado.  Há, também, os centros de referência internacional.

As decisões não podem ignorar o conhecimento científico transdisciplinar e nem as dramáticas experiencias que já tivermos com desastres na mineração, como Mariana, Brumadinho, Maceió.

Os políticos e os economistas devem ouvir os cientistas e pesquisadores, não apenas estudiosos de tecnologias, mas sobretudo os que trabalham com as consequências socioambientais, para que eventuais autorizações considerem, efetivamente, a médio e longo prazos, as implicações da exploração minerária para o ambiente, para a água, para os seres vivos, para os assentamentos humanos.

As práticas de licenciamento e a fiscalização não podem ser dispersas e subordinadas a visões político-ideológicas que historicamente alimentaram a desigualdade. O lucro econômico não deve, de novo, se sobrepor às questões socioambientais, especialmente em tempos de riscos e desastres climáticos.

Com tantas implicações, é preciso considerar se, com a mineração própria ou estrangeira, não estaremos, novamente, desprezando a real riqueza do planeta e, especialmente do território brasileiro: as reservas de mata, fundamentais para a mitigação do aquecimento global em curso; a água limpa; a vida fauna, que alimenta a biodiversidade; as populações e assentamentos humanos que vivem nas regiões exploradas.

Além de prevenir mortes e destruição, é essencial questionar a permanência da visão desenvolvimentista, da ilusão do progresso e do crescimento econômico a qualquer custo, antes de abraçar processos que destroem as verdadeiras riquezas do planeta e, concretamente, nunca diminuíram a desigualdade estrutural do capitalismo de consumo e, muito menos, dos países historicamente explorados.

Vale observar as orientações da Carta da Terra: 

  • “Respeitar e cuidar da comunidade de vida”
  • “Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado assumir uma postura de precaução.”;
  • “Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas consequências humanas, globais, cumulativas, de longo prazo indiretas e de longo alcance.”

Fontes de informação

  • ANM Agência Nacional de Mineração vinculada ao Ministério de Minas e Energia
  • ANA Agencia Nacional de Águas e Saneamento Basico publica relatórios de monitoramento e notas técnicas sobre o impacto da atividade minerária nas bacias hidrográficas
  • CARTA DA TERRA  earthcharter.org
  • CETEM  Centro de Tecnologia Mineral vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnlogia e Inovação (MCTI). 
  • EMBRAPA SOLOS desenvolve pesquisas com foco no monitoramento, recuperação e manejo de áreas afetadas pela mineração e pesquisa específica sobre Fitomineração.
  • IEA Agência Internacional de Energia publica  relatório anual The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions, mapeia o mercado e as inovações tecnológicas globais necessárias para reduzir o impacto ambiental da extração de lítio, cobalto e neodímio
  • SGB Serviço Geológico do Brasil – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais:  sgb.gov.br
  • SVPM Serra Verde Pesquisa e Mineração :  svpm.com.br
  • UNEP Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.  Publica a Science Digests e relatórios focados na cadeia de suprimentos de minerais críticos como “Rare Earth Elements: From Mineral do Magnet”, discutindo os gargalos de sustentabilidade e apontando caminhos para a economia circular.